sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Há 309 dias


o seu cabelo quente pressionava
o meu rosto esperava
o seu
o meu corpo relutava
em vão, ansiava um toque:
o seu.
tremi quando deixei
minha pele sentir
o seu
corpo no encanto de dois passos
que afogavam todo o claustro
no desenlace de outros traços
na finitude de um abraço:
o seu
toque desespera na pele. 

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Pressa

Dos teus braços, mulher
partem em tal doçura
seu brilho,
seus sapatos no encalço de alguém,
alguma coisa,
felicidade, que seja,
que enalteça, adormeça e te fale,
friamente, depois,
"me esqueça".
Desapareça, ouvi,
compreendi,
e foi o que fiz
visto que sumiço é trabalho
pra esperto.
E por estar perto,
a mulher, que os abraços ofereceu,
se descalçou dos sapatos e saiu,
de encalço,
mais uma vez,
atrás dos braços de outrém.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Impressiona a vontade do ser humano que, em existir, gosta do sofrer. E me envergonha, de certa forma, a forma com que um mínimo desgosto distrai e que, com gosto, faz questão em existir. O mal entretém, pois é.
A fortuna mora ao lado, ouço dizer, mas ninguém é capaz de tocar no vizinho num mero intuito de pedir uma xícara de açúcar sequer. E, olha, me estranha a falta de jeito, em partes inteira, saber que o sofrimento do outros dói tão pouco que a gente só é capaz de insistir em mandar passar e dizer "vai ficar tudo bem, eu garanto". Garante nada.
"Logo passa", dizem aos que sofrem, mas quando o mesmo dizem a mim, não me passa mais nada à cabeça que não atirar a tal xícara de açúcar na cara de alguém.
E dos mais devaneios e pensamentos longe de lineares, me pergunto somente: o homem faz parte do sofrer ou o sofrer é parte vital da essência do homem?

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Ao ano que vai, deixo somente as boas lembranças. Saudades não. Pesares não. As incertezas, junto das mais tímidas certezas, carrego comigo sempre. Dou as mãos e agradeço.
Ao mundo deixo um abraço; um passo maior de mais livros lidos, mais beijos dados, mais sorrisos arrancados. Às pessoas, tento dedicar somente amor, e toda a alegria que possa emanar dele.
Ao ano que chega não desejo nada. Não peço nada, não espero nada. Faço força para viver apenas, e arrancar o mesmo da vida. Da vida, assim também, não espero nada. Deixo ela andar sozinha que é mais emocionante.
À todos que ainda querem, desejo somente um feliz ano, e o maior número de braços que puderem abraçar.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

"Sorria, sorria" diziam, e mesmo no calor que estia, se via vazia de riso para enfim sorrir em vão.
"Sabe...", pensava. "Discordo do modo que falam e calam e criticam só pelo esporte que é criticar. Sofro, ao invés de sorrir, que é mais bonito e mais pensado; e assim é, de certa forma, mais fácil carregar o fado."

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Toda feira - digo por assim dizer - é capaz de me trazer cem jeitos diferentes de sofrer, mesmo sem acreditar que quem sofre é menos capaz de arrancar do peito mais de mil maneiras solitárias de morrer.

sábado, 3 de outubro de 2009

"(...) Eu gosto quando mentem! A mentira é o único privilégio humano perante todos os organismos. Quem mente chega à verdade! Minto, por isso sou um ser humano. Nunca se chegou a nenhuma verdade sem antes haver mentido de antemão quatorze, e talvez até cento e quatorze vezes, e isso é uma espécie de honra; mas nós não somos capazes nem de mentir com inteligência! Mente para mim, mas mente a teu modo, e então eu te dou um beijo. Mentir a teu modo é quase melhor do que falar a verdade à moda alheia; no primeiro caso és um ser humano, no segundo, não passas de um pássaro! A verdade não foge e a vida a gente pode segurar com pregos; exemplos houve. E hoje, o que nós fazemos? Todos nós, todos sem exceção, no que se refere à ciência, ao desenvolvimento, ao pensamento, aos inventos, aos ideias, aos desejos, ao liberalismo, à razão, à experiência e tudo, tudo, tudo, tudo, ainda estamos na primeira classe preparatória do colégio! Nós nos contentamos em viver da inteligência alheia - e nos impregnamos! (...)"

F. Dostoiévski